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Mercado de trabalho passa a exigir fluência em inteligência artificial

Empresas buscam profissionais capazes de usar ferramentas de IA, interpretar dados e combinar conhecimento técnico com habilidades humanas. Oferta de cursos e graduações na área também cresce no Brasil.

A expansão da inteligência artificial está mudando o perfil profissional procurado pelas empresas no Brasil. A fluência em ferramentas de IA deixou de ser uma competência restrita a especialistas em tecnologia e passou a aparecer também em processos seletivos de áreas como administração, comunicação, finanças, marketing e desenvolvimento de negócios.

O movimento ocorre enquanto escolas, universidades, governos e empresas ainda tentam definir regras para o uso responsável da tecnologia. De acordo com levantamento da TIC Educação 2025, divulgado pelo Cetic.br em agosto de 2026, 53% das 2.404 escolas consultadas já utilizavam inteligência artificial generativa em atividades pedagógicas, administrativas ou financeiras. Em 37% delas, os estudantes podiam usar essas ferramentas em tarefas educacionais, mas apenas 22% tinham um guia institucional sobre o assunto.

Os dados são relacionados à educação, mas ajudam a explicar uma transformação que alcança o mercado de trabalho: a tecnologia está sendo incorporada antes que existam padrões comuns de formação, avaliação e governança. Para o trabalhador, isso aumenta a importância de aprender a utilizar recursos de IA, verificar respostas produzidas por sistemas automáticos e entender os limites éticos e jurídicos dessas aplicações.

O que as empresas começam a procurar

O domínio de uma ferramenta específica não é suficiente para garantir empregabilidade. A tendência apontada pelas iniciativas de formação e pelas exigências de recrutamento é a busca por profissionais que saibam combinar conhecimento técnico, capacidade analítica e competências humanas.

Na prática, isso significa entender como escrever comandos claros para sistemas de IA, organizar informações, comparar resultados, identificar erros e transformar dados em decisões. Também envolve saber quando a ferramenta não deve ser usada e como proteger informações pessoais, estratégicas ou confidenciais.

Competências como comunicação, colaboração, pensamento crítico, criatividade e capacidade de aprender continuam relevantes. A diferença é que passam a ser aplicadas em conjunto com recursos tecnológicos que aceleram tarefas de pesquisa, redação, programação, análise e atendimento.

Essa combinação aparece em uma seleção anunciada pelo Nubank em agosto de 2026. O banco abriu 50 vagas de estágio para 2027 destinadas a estudantes de qualquer curso, com formatura prevista para 2028 ou 2029, e incluiu entre os requisitos experiência prática com ferramentas como Claude, Cursor, GitHub Copilot ou APIs de inteligência artificial. A exigência mostra que a familiaridade com IA pode ser considerada mesmo quando o candidato não está matriculado em uma graduação de computação.

O requisito, porém, não deve ser interpretado como obrigação de conhecer todas as plataformas disponíveis. Ferramentas mudam rapidamente, e os nomes usados hoje podem ser substituídos por outros. A habilidade mais duradoura é compreender os princípios de uso, avaliar a qualidade das respostas e aplicar a tecnologia ao problema correto.

Aprender continuamente ganha importância

O avanço da IA reduz a validade de conhecimentos puramente operacionais que podem ser automatizados ou executados com apoio de sistemas generativos. Isso não elimina a necessidade de formação técnica, mas aumenta a pressão para que o profissional atualize seus conhecimentos ao longo da carreira.

Henrique de Castro, CEO da New Rizon, afirmou ao material publicado pelo UOL que as pessoas precisam reaprender a aprender e que a capacidade de aprendizado passou a ter peso maior diante da velocidade das mudanças. A empresa mantém um bootcamp gratuito de três meses para 50 jovens interessados em carreiras ligadas à inteligência artificial.

Para quem busca uma vaga, essa mudança pode ser traduzida em atitudes práticas:

  • aprender o funcionamento básico de ferramentas de IA generativa;
  • desenvolver noções de análise de dados e segurança da informação;
  • praticar a revisão e a checagem de conteúdos produzidos automaticamente;
  • montar projetos que mostrem como a tecnologia foi aplicada a uma tarefa real;
  • aperfeiçoar comunicação, organização, criatividade e resolução de problemas.

Projetos práticos podem ser úteis porque demonstram mais do que a conclusão de um curso. Um candidato pode apresentar, por exemplo, um fluxo de automação, uma análise de dados, um protótipo de aplicação ou uma pesquisa em que tenha usado IA, explicando quais decisões foram tomadas por ele e quais etapas receberam auxílio da ferramenta.

Oferta de cursos cresce em diferentes níveis

A procura por formação acompanha a demanda do mercado. Segundo o material, as graduações com inteligência artificial no nome oferecidas pelo Sisu passaram de quatro para 27 em um ano, totalizando 1.496 vagas. Na pós-graduação lato sensu, o número de cursos subiu de 507 em 2024 para 1.159 em 2025. Desse total, 98% eram privados e 86% funcionavam na modalidade a distância.

O crescimento amplia as opções para estudantes e trabalhadores, mas também exige atenção na escolha do curso. O nome “inteligência artificial” pode abranger formações bastante diferentes, como programação, ciência de dados, aprendizado de máquina, automação, robótica, cibersegurança e gestão de projetos tecnológicos.

Antes da matrícula, é importante verificar a grade curricular, a carga de atividades práticas, a formação dos professores, a situação da instituição e os requisitos de ingresso. Em cursos de graduação, o estudante também deve observar a duração, o reconhecimento oficial e as possibilidades de estágio. Em especializações, vale conferir se o conteúdo corresponde à experiência e ao objetivo profissional do aluno.

A formação não precisa começar necessariamente em uma graduação. Cursos técnicos, programas de curta duração, bootcamps e capacitações oferecidas por instituições públicas ou privadas podem ajudar o trabalhador a desenvolver competências específicas. A escolha depende do nível de conhecimento, do tempo disponível e da carreira que se pretende seguir.

Experiências em Goiás e no Rio de Janeiro

Goiás aparece como um dos estados que estruturaram uma trajetória de formação em IA desde a educação básica até a pesquisa aplicada. A Universidade Federal de Goiás criou, em 2019, o bacharelado em Inteligência Artificial, apontado como o primeiro curso público brasileiro com esse foco. A graduação oferece 40 vagas anuais e tem duração de oito semestres.

O estado também mantém iniciativas de robótica, programação, impressão 3D, drones, realidade virtual e inteligência artificial. A Olimpíada de Inteligência Artificial Aplicada, criada em Goiás, passou de 65 equipes participantes em 2024 para 566 equipes validadas em 2026, reunindo 1.698 estudantes e 566 tutores de 19 estados, segundo a fonte. Os grupos resolvem desafios relacionados a visão computacional, processamento de linguagem natural e análise de dados.

Na formação profissional, as Escolas do Futuro de Goiás registraram 67.298 matrículas entre julho de 2021 e 2026, dentro de uma oferta de 77.751 vagas. A rede também utiliza medidas como bolsas mensais de até R$ 400 e crédito social para determinados cursos, com o objetivo de reduzir obstáculos relacionados a transporte, equipamentos e renda.

No Rio de Janeiro, a PUC-Rio abriu uma graduação privada em inteligência artificial. A mensalidade de referência informada para 2026 era de R$ 6.561, considerando 23 a 24 créditos. O programa Behring Tech prevê bolsas de 30%, 50%, 70% e 100%, incluindo até cinco bolsas integrais, conforme as informações divulgadas pela instituição.

A procura pelo curso aumentou entre as seleções mencionadas na fonte: foram 57 candidatos para 30 vagas no processo de inverno de 2025 e 105 candidatos para as mesmas 30 vagas no vestibular do primeiro semestre de 2026. Os números indicam interesse crescente, mas não permitem concluir, sozinhos, que todos os formados terão emprego na área.

Regras ainda estão em construção

A adoção de IA no ensino e no trabalho ocorre em um ambiente regulatório ainda incompleto. A Lei nº 15.388, de 14 de abril de 2026, que instituiu o novo Plano Nacional de Educação, incluiu inteligência artificial e educação digital entre as obrigações para a próxima década. O texto prevê atualização curricular, formação de professores, avaliação de competências digitais e critérios de transparência, proteção de dados e finalidade pedagógica para plataformas.

O Conselho Nacional de Educação recebeu prazo de dois anos para definir diretrizes específicas. O MEC publicou um referencial nacional, um guia para a educação básica, cursos para professores e um ambiente de testes supervisionados, chamado sandbox regulatório. O CNE aprovou uma proposta inicial de diretrizes em 11 de maio e abriu consulta pública, mas, conforme o material, ainda não havia resolução final homologada.

Essa distinção é importante para trabalhadores e empregadores. Uma proposta, um guia ou um programa de testes não equivale a uma regra definitiva. Enquanto a regulamentação nacional não é concluída, estados, escolas e empresas podem adotar políticas próprias, com critérios diferentes para treinamento, proteção de dados, autoria e uso de ferramentas.

Para o profissional, a recomendação é consultar as regras internas da empresa antes de inserir informações em plataformas de IA. Dados de clientes, documentos sigilosos, códigos proprietários e informações pessoais podem exigir proteção específica. Também é necessário informar o uso de conteúdo automatizado quando a política da organização determinar isso.

Como o trabalhador pode se preparar

A preparação para o mercado de trabalho influenciado pela inteligência artificial não depende apenas de escolher uma carreira tecnológica. Profissionais de diferentes áreas podem começar identificando tarefas repetitivas ou baseadas em grandes volumes de informação e aprendendo como ferramentas digitais podem apoiar essas atividades.

O passo seguinte é desenvolver capacidade de avaliação. Uma resposta produzida por IA pode conter erros, informações desatualizadas ou conclusões sem base. Por isso, o usuário deve conferir fontes, fazer perguntas adicionais e manter a responsabilidade pela decisão final.

Também é recomendável acompanhar cursos e programas oferecidos por universidades, institutos federais, escolas técnicas, entidades do Sistema S e empresas. Como os formatos e preços variam, o candidato deve verificar diretamente as condições de inscrição, bolsas, certificação e conteúdo atualizado.

O mercado ainda está definindo quais competências serão mais valorizadas em cada profissão. O cenário já indica, entretanto, que saber trabalhar com inteligência artificial será cada vez mais parecido com outras competências digitais: não necessariamente uma especialização para todos, mas uma habilidade transversal que pode influenciar contratação, produtividade e evolução na carreira.


Fontes consultadas:

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